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sábado, 19 de fevereiro de 2011

Peepli Live


Escrever sobre este filme não é tarefa simples pois aborda um assunto muito delicado: o dos suicídios de milhares de agricultores na Índia.

Este trágico fenómeno começou a chamar a atenção das pessoas nos anos 90, apesar dos relatórios oficiais o negarem inicialmente. Estima-se que entre 2002 e 2006 tenham cometido suicídio cerca de 17.500 agricultores por ano.

Apesar de ainda não existir um estudo oficial, é aceite que a maioria ocorra nos estados do Andhr
a Pradesh, Maharashtra, Karnatak, Kerala e Punjab.

O contexto que leva estes agricultores a tomar esta medida desesperada é complexo mas cinge-se, essencialmente, ao endividamento. O endividamente pela contracção de créditos - cujo dinheiro habitualmente é empregue na aquisição de sementes manipuladas geneticamente - que não são suportáveis dado o baixo rendimento obtido pelos agricultores.

Em Peepli Live, a estreia como realizadora de Anusha Rizvi (numa produção de Aamir Khan), é-nos contada a história de Natha (Omkar Das Manikpuri) um pobre agricultor da aldeia de Peepli, que se esforça por sustentar a família trabalhando a terra com o seu irmão Budhia (Raghubir Yadav).

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Filme: Fanaa

Fanaa conta a história de Zooni (Kajol) uma rapariga cega que pela primeira vez viaja sem os pais, vai actuar na cerimónia da comemoração da Independência em Delhi.

Em Delhi conhece Rehan (Aamir Khan), um guia turístico e apesar dos avisos das amigas acerca dele ela acaba por se apaixonar por ele, no dia do seu regresso Rehan "rapta" Zooni e com a bênção dos amigos começam a viver juntos.

Rehan encoraja Zooni a fazer uma operação que lhe poderá devolver a visão e no dia da operação Rehan é morto num atentado bombista.

Vou ficar por aqui pois não quero estragar o filme para vocês, aliás nem recomendo verem o trailer pois na minha opinião o trailer "estraga" o filme, de qualquer maneira aqui fica o trailer e as músicas do filme legendadas no nosso Português, como o meu conhecimento de Hindi é pouco digam nos comentários se existem erros ou más traduções para que possa corrigir.

As músicas neste filme estão todas acima da média na minha opinião.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Peepli [Live] no Diário de Notícias

E uma vez que são tão raras as ocasiões em que o cinema indiano é referido nos meios de comunicação portugueses, há que celebrar as vezes em que tal acontece.
Aqui fica a transcrição de uma notícia de ontem publicada no Jornal de Notícias. Para mais tarde recordar...

"O conhecido actor do cinema indiano Aamir Khan, que também realiza e produz, decidiu transpor a notoriedade para o cinema de autor, como se constata em 'Peepli Live', o último filme que produziu.

O filme de Aamir Khan, que aos 45 anos é um dos homens mais poderosos e admirados na indústria de Bollywood - aborda a realidade da Índia rural contemporânea de uma perspectiva tragicómica.

domingo, 27 de junho de 2010

Taare Zameen Par - Como Estrelas na Terra


Taare Zameen Par, lançado em Dezembro de 2007, foi a primeira (e até agora, única) incursão do actor e produtor Aamir Khan pela tarefa da realização. É um filme especial.

Contrariando a tendência do cinema comercial, Aamir Khan decidiu realizar um filme centrado na infância. Não numa infância idílica e nostálgica, como aquela que gostaríamos que todas as crianças tivessem, nem na infância ultra-dramática e traumatizada das crianças exploradas por esse mundo fora.
Taare Zameen Par é um filme sobre a infância protegida e ao mesmo tempo cruel que têm as crianças que abandonam o aconchego familiar e o abraço materno para serem lançadas no mundo competitivo do sucesso académico que, para os melhores, será a garantia de um futuro próspero e respeitável.

A estrela - literalmente - de Taare Zameen Par é o seu pequeno protagonista Darsheel Safary, cuja personagem, Ishaan, é aquele miúdo que todos tivemos como colega na escola. Distraído nas aulas, palhaço da turma, e constantemente castigado pelos professores.

Desde o início do filme que acompanhamos a visão de Ishaan, tornando-a nossa. E sentimos que ele é injustiçado, incompreendido e que não é mau rapaz. Pelo contrário. É imaginativo, audaz e particularmente engraçado.
O problema de Ishaan é apenas um: a dislexia que faz com que as letras saltem do seu lugar e o impeçam de ler ou escrever correctamente. Do mesmo modo, os números parecem troçar dele e fugir do sítio, o que também atrapalha o cálculo matemático.
Aos olhos dos professores, Ishaan é um falhado. Para os pais, é preguiçoso.


Como tal, decidem colocá-lo num colégio interno que o discipline. E é mais ou menos isso que acontece. Humilhado e afastado do amor da família, o espírito de Ishaan fica quebrado e ele deixa de pintar, de fazer graçolas e de sorrir.
O único amigo que tem no colégio é curiosamente o melhor aluno da turma, que é perspicaz o suficiente para perceber a origem da dificuldade de Ishaan e reconhecê-lo como o rapaz inteligente e sensível que é.

Quando entra em cena um novo professor de desenho (interpretado por Aamir Khan), este identifica o problema de Ishaan e decide pôr mãos à obra. Por essa altura, já Ishaan se encontra apático e deprimido, e esta tarefa, outrora potencialmente fácil, requer um empenho extra por parte do professor e, por extensão, do restante meio escolar e familiar.

Faltam-me os termos técnicos, uma vez que não estudei cinema, mas reconheço em Taare Zameen Par uma visão mais alargada daquilo que o cinema pode (e deve) ser. Os ângulos em que certas cenas são filmadas, a forma como a narrativa se desenrola, e as inclusões de cenas animadas aqui e ali tornam Taare Zameen Par um regalo visual.
A nível interpretativo, a prestação de Darsheel Safary é maravilhosa. É impossível que todos os seus gestos, atitude desafiadora e olhar vivaço estivessem no guião. Ou se calhar até estavam, mas a naturalidade com que fluem é impressionamente.

Mas... e tinha de haver um "mas". A entrada de Aamir Khan em cena traz uma grande carga de teatralidade a um filme que, até então, estava a primar pela naturalidade. As cenas musicais que surgem no filme a partir daí são, no mínimo, dispensáveis, e o seu discurso hiper-pedagógico rouba ao filme um realismo que até aí era imaculado.
Mas o facto é que Aamir Khan parece ser o artista com mais consciência social em Bollywood e usa todos os seus filmes como veículo para mensagens que, na verdade, são maiores e mais importantes que os filmes em si.
E em Taare Zameen Par a mensagem é esta: respeitem a individualidade de cada criança e não as arrastem para o mundo competitivo das ambições projectadas pelos pais e pela sociedade. Cada criança é especial e cada uma tem direito ao seu espaço. Como uma estrela.

Em jeito de epílogo, quero agradecer ao nosso amigo Ibirá Machado, do blog Cinema Indiano, por duas coisas. Em primeiro lugar, por me ter obrigado a ver este filme. Valeu a pena.
Em segundo - e na realidade esta é a mais importante - pelo seu esforço titânico de divulgação deste filme pelo Brasil e pela internet fora.
Neste momento, já houve garantidamente centenas de pessoas que, graças a este esforço, terão visto no Brasil (que não tem tradição de cinema indiano) um filme que, da parte das distribuidoras, não teve qualquer promoção.
Quem quiser ajudar a que, no futuro, Taare Zameen Par venha a ser editado no Brasil - ou até que venha a ter uma estreia oficial nos cinemas em circuito comercial - por favor assine a petição que foi criada para o efeito. E pessoal: quando o filme sair, comprem-no. Mostrem às distribuídoras que o Brasil é um mercado enorme e com fãs dedicados e em número suficiente para fazer encher salas de cinema.

Aqui por Portugal somos capazes de ter alguma sorte, uma vez que alguns filmes anteriores de Aamir Khan - Lagaan e Mangal Pandey - chegaram a ser editados em DVD. A ver vamos.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Fanaa


Nota: a minha caríssima colega barbie-o já convenientemente falou um pouco sobre esta obra, no entanto não resisto a exprimir alguns pensamentos que este filme me provocou.

A produtora Yash Raj Films tem sido a casa de vários bons filmes nos 30 anos de vida, sendo disso exemplo filmes como Chandni, Dilwale Dulhania Le Jayenge e Kabhi Kabhie, aconselhando-se estarem atentos a cada novo lançamento.
O filme conseguiu ser um sucesso de bilheteira num período em que a indústria indiana parecia não conseguir criar obras que apelassem ao público, e mesmo a sua produção tem uma história que podia ser usada para a parte 2 (cruz credo…).
É fácil resumir o filme. Na primeira hora há romance, depois é acção, depois é drama, depois é tragédia. É difícil explicar o deslumbramento. Por partes…

O nível de interpretação dos protagonistas está nos píncaros. Khan faz o que costuma fazer bem, apenas de forma mais despojada, já que a personagem não é rapaz para grandes fogosidades heróicas. Engraçado foi reparar que usou alguns movimentos que me fizeram lembrar um outro filme seu quando devia ter metade da idade que tinha aqui. Está aqui acima da sua média, se considerarmos a contenção que permitiu tornar a personagem viva, assumindo que a sua média é elevada.

Mais surpreendente é Kajol, de uma expressividade encerrada nos olhos, exemplar em todas as expressões que transporta ao longo do filme, inclusive quando está em segundo plano. A complexidade que cria para uma personagem que poderia cair na banalidade em outras mãos, faz-nos lembrar que mesmo depois de afastada, ainda é das melhores e mais bonitas actrizes indianas. Zooni atravessa o filme como se fosse uma aparição encarnada, um género de realismo mágico em forma de mulher.

A história tem um equilíbrio precário entre o perfeito romance e a tragédia avassaladora que podia ter tido efeitos descosidos, não fosse o excelente trabalho de direcção de actores que concerteza existiu por parte de Kunal Kohli, num trabalho com resultados bem superiores aos seus anteriores.
Pode-se discutir a sequência de acção “a-la-007” no inicio da segunda hora, mas até essa está bem conseguida e é absorvida pela compacta ambiência do todo. De resto, o tema da independência de Kashmir apesar de essencial para a história é tratado de forma fugidia e nunca é realmente concretizado. Mais que o tema político que poderia ter sido desenvolvido, o objecto central escolhido foi a consequência específica numa paixão singular.

Os diálogos conseguem ser um pouco de tudo sem beliscar o bom gosto. São engraçados, com segundos sentidos, românticos, amargurados, e em cada um dos registos são emotivos. Excelente trabalho. Gostei particularmente do casal Kirron Kher e Rishi Kapoor, pais de Zooni e explicação para a sua força de carácter.


A música abraça-nos com uma inquietante alegria à qual não se resiste e as letras são muito boas, em particular Chanda Chamke que é puramente genial. Prasoon Joshi traduz numa dúzia de frases o universo abstracto do argumento, quando este aparentemente não possui nenhum. Qualquer um dos temas fica, desde a primeira audição, connosco o dia inteiro e depois de repetidos estamos capazes de os imaginar como se os tivéssemos perto do ouvido. As variações sobre o tema principal, composto por Jatin e Lalit Pandit, conseguem repetições de melodia que soam sempre a novo, apoiadas por orquestrações sobre instrumentos populares e diversas vozes masculinas e femininas sobrepostas.
A música de fundo está tão bem envolvida que duvido que alguém tenha dado por ela existir, tal é o fascínio que as personagens provocam, o que é um crime pois Salim-Sulaiman atinge na perfeição a árdua tarefa de só se fazer notar num segundo ou terceiro visionamento, em que então já o ouvido segue ao mesmo ritmo do olhar.

Visualmente, a cinematografia de Ravi K. Chandran resulta como se limpasse o vidro de uma janela coberta por neve, permitindo-nos vislumbrar a narrativa forma cristal clear. Repleto de imagens tão largas no enquadramento como íntimas de significado, o filme não pede mais que a entrega a si e recompensa aqueles que nos pormenores esperam o melhor e em que a última sequência musicada é tão branca pela pureza do amor de ambos como é de paisagem fria e desoladora da improbabilidade de tal ser aceite pelo mundo que os envolve. Nesse, a perfeição dos amantes é consumida pela realidade da existência, aquela que não tem lugar para aguentar tanta feliz ventura e que na sua inveja tudo invalida, em especial quando vai contra os equilíbrios da vida, quando a esta se pretende a mais ascender. Para maiores bens, advêm males maiores, e do que foi, permanecem as reminiscências dos que ficam e a danação dos que foram, apenas porque foram afastados ao chegar ao limite sensível do divino permitido a este mundo.
O dilema moral, para aquele que sempre seguiu o seu próprio caminho, e assim ente amoral, transmuta Rehan de um homem com propósito bem determinado num ser hesitante ou pelo menos num ente dividido entre o que vai decidir e a angústia de ainda não o conseguir aceitar.

A meia-hora final é cruel, tanto no desenrolar dos inevitáveis como nas figurações que escolhe para o descrever. Usa a estética fotográfica das imagens para acentuar o tom de perda final e a incapacidade para contrariar a fatalidade. Zooni perde-se na suspeição perante um desconhecido que nunca imaginaria defrontar, e para o maior dos bens ou menor dos males decide ela o seu destino, tomando para si a responsabilidade das coisas que antes estavam fora do seu controlo. Aqui, o argumento torna-se simplista, mas se talvez se possa julgar mal disso, também é aceitável que chegados a este lugar de sombras, despir a narrativa ao mais básico seja um desfecho compreensível e forma de simplificar em palavra o que é complexo em ideia.

Lembro-me que, após ver o filme fiquei sem saber se a perturbação interior que sentia era autêntica e duradoura ou um prenúncio de que mais tarde, depois de racionalizar o que tinha assistido, tal se desmoronaria por falta de conteúdo, chamemos-lhe, maior.
Nesse dia, já à espera do sono, pus-me a pensar sobre qual seria o âmago ao qual poderia sintetizar o filme. No fundo, é simplesmente uma história sobre aquilo que se quer ser ou que se pensa que seremos e o que realmente a vida nos conduz a ser. Rehan tem toda a sua vida entregue e focada como um homem sem outro objectivo para além de cumprir a vontade daquilo que o educou, mas a vida atirou-o de encontro àquilo que a maioria procura e nunca encontra. Deu-lhe um filho que não viu crescer e alguém que pode amar nem reflectir em razões para além de assim advir. O destino obrigou-o a amar quando não esperava e como nunca o quis pôde absorver. Rehan tem a redenção que buscava pela mão que o libertaria de si em vida e com o mesmo braço com que apunhalava o inimigo ameaçou a encontrada submissão a uma mulher. Escolheu partir. No seu confronto final, por entre o sofrimento do inevitável, nenhum deles atinge o provável fanaa. Um falha por não se permitir a libertação do passado, o outro porque não se aceita a negar o futuro. “Tudo não pode ser feito só!”.
Aqui deixamos um pedaço da beleza do objecto fílmico...

Fanaa - Chanda Chamke


segunda-feira, 6 de julho de 2009

Taare Zameen Par - Petição pela distribuição no Brasil






















O nosso caro amigo Ibirá Machado, autor do blog brasileiro Cinema Indiano, acaba de lançar uma petição pela exibição no Brasil do filme Taare Zameen Par - Every Child is Special.

Esta petição tem o nosso total apoio pois Taare Zameen Par, além de ser considerado um filme de excepção no panorama cinematográfico indiano, é também um filme muito pouco divulgado e difícil de arranjar, tanto por terras lusas como brasileiras.

Tendo sido realizado e protagonizado por Aamir Khan, um dos mais importantes actores da sua geração, TZP tem uma forte vertente pedagógica, reflectindo sobre a vivência e a educação de uma criança com dislexia, uma doença geralmente negligenciada.

Nós em Portugal facilmente temos acesso em DVD a outras obras do mesmo actor, tais como os filmes Laagan e Mangal Pandey. Mas por algum motivo, TZP não se encontra à venda. Se quiseremos encomendar online, é melhor estarmos preparados para desembolsar quase 30€.

Por estes motivos, desejamos sucesso a esta petição e que abra portas à distribuição, tanto nos cinemas como no mercado doméstico, à comercialização de filmes indianos no Brasil.

De igual modo, pedimos aos nossos leitores brasileiros que assinem a petição e a façam chegar ao maior número de pessoas possível. Obrigada!

ASSINE AQUI A PETIÇÃO!

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Mangal Pandey

Este filme já foi aqui referido algumas vezes. Normalmente à conta de filmes em que o Aamir entra, outras pela fotografia do Aamir em si. Parecem-me boas razões, cofcof, mas como revi o filme e gostava de colocar aqui uma das minhas cenas dançantes preferidas (a música, a letra, a cor, a liberdade transmitida…, a alegria do balbúrdia...), julguei ser boa altura para deitar fora (de mim) algumas palavras sobre os pensamentos que se me surgiram durante o revisionamento.
Por onde começar, hum… talvez por dizer que é um filme que mostra no seu todo um equilíbrio pouco usual. Dizer isto desta forma faz pensar que a coisa é bem-feita e aborrecida, mas por dentro desta mera descrição, está para mim implícito, uma obra que funciona em variados níveis conseguindo ser bom em todos eles.


Vamos por poucas partes. Quantas vezes é que já assistiram a um filme em que a voz off que narra diz exactamente aquilo que ouvimos os personagens a dizer e vos parece mesmo bem, ainda que não se perceba logo exactamente porquê? Qual foi o último filme que viram em que todos os condimentos mais banais do melodrama são usados de forma despudorada e ficaram felizes por ser assim? Quantas vezes viram um filme para o qual já sabem a sequência dramática que a história vai tomar e mesmo assim ficam fascinados quando ele se apresenta tal e qual o esperado? Qual foi o último filme que viram em que sentiram pena por não o poder partilhar com outra(s) pessoa(s) lado a lado?


É um filme em que se sente presente a câmara que o filma. O ecrã parece estar sempre bem medido nos elementos que contêm, seja nos grandes planos, seja nos abertos, onde realmente consegue imagens estonteantes. Bom trabalho de Ketan Mehta, cuja obra não conhecia. É um filme para se apreciar em grande formato e em pequeno vagar, como se lá estivéssemos. É fácil sentir o que se atenta. Todas as interpretações são boas, mesmo as (poucas) que são estereotipadas, mas sobretudo a dos dois casais principais. Mencionar o porte valoroso de Khan não é da minha lavra e aludir a beleza de Rani Mukherjee é escusado, mas que Toby Stephens na exposição do homem que interpreta é digno de nota, pela ingenuidade e na utilização do semblante/linguagem, já fica bem. O mesmo se pode dizer a um nível mais primário de Amisha Patel, porque sim.

A cena dos cães a lamber as munições e a passividade com que a coroa inglesa parecia lidar com a corrupção, em que o interesse económico se sobrepunha a tudo o resto, seja qual o valor “moral”, na normalidade da hipocrisia de todos os dias, formam um díptico que na minha memória há-de comparar sempre que semelhantes ideias sejam utilizadas em outros filmes.
A música, composta por
A.R. Rahman e com as letras de Javed Akhtar, não precisa de comentários para além da menção dos envolvidos…

Podia viver semanas a alimentar-me apenas desta curta passagem…

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Beldades do Cinema Asiático























O nosso amigo Shinobi do blog My Asian Movies é um tipo às maneiras e publica regularmente uma secção de "Beldades do Cinema Asiático".


A pedido de várias famílias, começou a publicar também artigos sobre beldades masculinas do cinema asiático e, por sugestão da yours truly, reservou um cantinho para o mui belo e talentoso actor indiano de nome Aamir Khan.


Sugiro aos nossos leitores um saltinho ao My Asian Movies para mostrar como apoiamos tão sábia decisão.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Já agora... Radha Kaise Na Jale

Uma vez que os caríssimos estão todos a colocar aqui coreografias que gostam, deixo aqui uma da qual gosto, com a Sra D. Gracy Singh e o Sr. Aamir Khan. O filme é o Lagaan.

A música é excelente e a coreografia tem um final apoteótico que vale a pena ver.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Ghajini

Depois de semanas de espera, finalmente o DVD de Ghajini foi lançado na Europa!
Finalmente pude ver se a expectativa era justificada e compreender o motivo de ser o filme indiano com mais receitas de bilheteira de sempre. Tem até direito a action figures e jogo de computador!

O nome do actor principal, Aamir Khan, já é suficiente para gerar uma grande antecipação. Trata-se de um intérprete que escolhe os projectos a dedo e que só nos tem dado grandes filmes e grandes interpretações.

Adicionalmente, este Ghajini é um remake pelo mesmo realizador (A.R. Murugadoss) do Ghajini em língua Tamil de 2005 com o actor Surya Sivakumar. E pelo que leio na internet, o Ghajini original causou furor.
Os dois filmes são por sua vez inspirados no americano Memento, de 2000.

A nível narrativo, o passado da personagem principal é-nos revelado através da leitura dos seus diários por personagens secundárias.

Tal como em Memento, o protagonista Sanjay Singhania sofre de perda da memória recente, pelo que tatua em si próprio notas importantes para não se esquecer. O que o move é vingar a morte da noiva, Kalpana (Asin, que desempenhou o mesmo papel no filme original), matando o seu assassino. E basicamente terminam aí as semelhanças entre os dois filmes.

Sanjay percorre as ruas da cidade em busca de Ghajini, o assassino, e vai matando impiedosamente quem quer que se atravesse no seu caminho. À medida que os seus diários são lidos, percebemos que Sanjay era um empresário muito bem sucedido que se cruzou com uma modelo de anúncios televisivos de bom coração e espírito altruísta, por quem se apaixonou.

Não querendo revelar todo o enredo, é esse mesmo espírito altruísta que acaba por levá-la até ao criminoso Ghajini, que a mata à frente do noivo.

Enquanto espectadora, se há coisa que me irrita é a constante vitimização sexual das mulheres no cinema. Ou seja, sempre que uma mulher é vítima de um crime violento ou de algum tipo de assédio, isso acaba sempre por ter contornos sexuais. Parece que é o destino das mulheres no cinema serem violadas ou molestadas ao invés de simplesmente espancadas ou assassinadas como acontece às personagens masculinas.
Como tal, achei muito bem que em Ghajini não houvesse aquela história de violar e matar a mulher do herói. Finalmente uma heroína que não recebe tratamento "especial" só por ser mulher.

Voltando ao filme. Tem coisas difíceis de digerir. E não estou a falar das cenas de violência pesada. É mesmo das músicas completamente despropositadas e dos interlúdios cómicos que estragam a cadência do filme e que simplesmente não se percebem.
Com excepção às excelentes Guzarish e Kaise Mujhe, a música é simplesmente demasiado animada para um ambiente que se quer sombrio e desesperado.

Outra coisa que me deixou estragada: a cena roubadíssima do francês O Fabuloso Destino de Amélie em que Kalpana oferece ajuda a um cego para atravessar a rua e vai descrevendo o que se passa à sua volta. A cena em si foi feita de uma forma tão básica, tão desprovida de sensibilidade que se torna óbvio que não foi ideia deste argumentista.
Eu imagino que o cinema europeu não seja muito visto na Índia, mas os realizadores não se podem esquecer que há uma gigantesca comunidade indiana e paquistanesa na Europa que conhece filmes europeus e que se de facto o cinema indiano almeja conquistar novos mercados convém não dar aos europeus e aos americanos mais do mesmo daquilo que eles já conhecem. Dêem-nos cinematografia indiana, por favor.

Tirando estas duas questões, adorei Ghajini. A exposição de Aamir Khan é um pouco excessiva, não precisava de aparecer sempre tão produzido e com os peitorais expostos, mas enfim.
O facto é que tem uma actuação bestial, tal como a actriz Asin. Aliás, quase que arrisco dizer que gostei mais da personagem dela do que da dele. Parece muito tontinha, muito cabeça no ar mas tem um grande coração e um sentido de justiça firme.

E apesar de eu ter passado metade do filme com comentários do género "que exagero!" ou "que tanga!", o facto é que no final só não chorei porque estava acompanhada.

Para terminar, devo dizer que a edição que comprei a partir da Amazon UK vem com legendas em Português do Brasil impecáveis. Ou seja, as editoras estão preparadas para os PALOP, só é preciso haver distribuidores. Por acaso acho que Ghajini é capaz de ser editado em Portugal visto ter sido lançado pela Adlabs que por cá tem distribuição Dikebarnel.

Apreciem então a bonita Kaise Mujhe, composta por AR Rahman.


segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Kisna: The Warrior Poet

Lançado em 2005, Kisna conta a história da jovem Katherine que, qual Cathy de Wuthering Heights, se apaixona pelo criado rebelde e obstinado, vivendo uma paixão que vai desde a infância até à idade adulta.

A história desenrola-se no período que antecede a independência da Índia e a subsequente separação da nação entre Índia e Paquistão.
Katherine (Antonia Bernath) é filha de um oficial inglês que aqui é apresentado como o vilão arquetipal, que despreza os indianos e impede a filha de privar com o seu grande amigo, Kisna (Vivek Oberoi).
Kisna tem outra amiga, Laxmi, que tem aquilo que podemos classificar de paixão obsessiva e improvável pelo herói. E isto porque a vemos, ainda criança, morrer de ciúmes de Katherine e dedicar-se de corpo e alma à religião (materializada através do yoga e da dança) na esperança de um dia ser recompensada com o amor de Kisna. A actriz Isha Sharvani tem a tarefa ingrata de desempenhar a personagem pouco desenvolvida e basicamente vazia de Laxmi, e nem as suas incríveis aptidões físicas para a dança e para o yoga (e nisto ela é mesmo fantástica) tornam Laxmi interessante.

Pretendendo criar aqui um paralelo com as figuras mitológicas de Radha e de Krishna, Kisna acaba por nos recordar de Lagaan, um filme maravilhoso onde essa simbologia é explorada de forma bem mais intensa através das personagens de Gracy Singh, Rachel Shelley e Aamir Khan.

Em Lagaan, a subtileza dos sentimentos entre a inglesa Elisabeth e o indiano Bhuvan, assim como a devoção deste último a Gauri, a sua eterna namorada, são verdadeiramente inspiradores e, pelo menos em mim, deixaram o sentimento de que o amor verdadeiro não precisa de ser consumado, apenas sentido, e que, talvez por isso mesmo, tem a capacidade de ser eterno.
Em Kisna, isto que eu acabei de dizer é verbalizado pela personagem Laxmi em conversa com Katherine, e o motivo pelo qual tem de ser tão explícito é exactamente porque o guião, embora tente apontar nesse sentido, não está muito bem construído e tudo tem de ser dito ou forçado.

O filme acaba por se repetir: além de perdermos a conta ao número de vezes de Katherine é raptada pelos vilões, volta e meia surge Laxmi a dançar sem nenhum motivo que o justifique.
E apesar de haver um óbvio crescendo da paixão que une os dois protagonistas, no final Kisna acaba por se separar de Katherine porque está prometido em casamento a Laxmi. Eu sei, há que honrar os compromissos. Mas tem de ser sempre à custa do amor?
Creio que foi um final moralizante desnecessário.

Dito isto, é recomendado para quem queira ver um filme de época com aventura e romance. Mas sem expectativas demasiado altas, por favor.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Filmes indianos no Porto

A pedido de algumas famílias - e de mim mesma, que acho que o cinema indiano merece ser visto e amado por todos - aqui fica o contacto de uma loja no Porto que vende filmes de qualidade, grandes sucessos do passado e do presente com os grandes actores de Bollywood que têm vindo a marcar geração após geração.

Alguns lembrar-se-ão de filmes mais antigos como O Sofrimento do Amor ou de filmes modernos incontornáveis com actores como Shah Rukh Khan ou Aamir Khan.
Está tudo lá, com legendas em Português ou, garantidamente, em Inglês e com o selinho do Ministério da Cultura e tudo.

E não, eu não ganho comissão, mas esta loja é muito simpática e tem um distribuidor impecável a quem eu comprava filmes em Lisboa e cujos DVD tinham sempre qualidade, o que é muito importante.
Já sabem:

MANRAJ
R Cedofeita 315 4050-181 Porto
222083451

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Ghajini


Estreia a 25 de Dezembro e é um remake do filme tamil Ghajini, que por sua vez se inspira no americano Memento.
Parece que o novo corte de cabelo de Aamir Khan tem feito sucesso na Índia, tendo sido até proibido em algumas escolas (!).
Aqui pelos lados do grandmasala tem a nossa aprovação, eheheh.

Tenho grandes expectativas para este filme, apesar de não ser grande fã de Memento.
A banda sonora é composta por AR Rahman por isso só pode ser excelente. E como do Aamir Khan só podemos esperar coisas boas, parece que desta vez a batalha é pela emancipação feminina. Nice ;)

Aqui fica o link para o site oficial e dois cartazes alternativos.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Fanaa

Uma jovem cega entrega-se ao amor nos braços de um guia turístico encantador, que com ela partilha o amor pela poesia. Ele morre num acidente, ela refugia-se numa casa nas montanhas com o seu pai e com o filho fruto dessa paixão.

Agora imaginem (***spoiler alert***) que um dia lhe bate à porta um homem ferido que acaba de cometer um atentado terrorista e cuja voz é... estranhamente familiar.

Fãs do Aamir Khan, sucumbam, fãs da Kajol, venerem.

Fanaa é passado em Caxemira, num cenário onde os afectos e a honra acabam por se cruzar, mas só por momentos.

Este filme funciona num crescendo, em que vemos a inocente Zooni esquecer tabus ou tradicionalismos e passar rapidamente à acção (é verdade, o amor não se deve deixar escapar) para perder aquele que seria o seu futuro marido, e, anos depois, encontrar um homem que entra em sua casa mas não lhe fala para não ser reconhecido.
Imaginam a cara da Kajol quando ele se revela? E a minha?

E pensar que eu não gostava da Kajol...

Para os curiosos, aqui fica a definição de Fanaa, de acordo com a Wikipedia:

Fanaa (فناء) is the Sufi term for extinction.
It means to annihilate the self, while remaining physically alive. Persons having entered this state are said to have no existence outside of, and be in complete unity with, Allah.

Bunty aur Babli

Para futura referência, "aur" significa "e".
Se eu fosse distribuidora de cinema e quisesse apresentar um filme indiano às massas, seria Bunty aur Babli. Dura quase três horas, como bom filme indiano que é, mas são três horas de diversão hilariante sem parar.


Bunty e Babli são dois jovens que se conhecem por acaso, quando ambos decidem abandonar as respectivas famílias na aldeia em busca de algo mais. Ele quer ser empresário, ela modelo. Tendo o Plano A falhado, não se dão por derrotados e unem esforços para passar ao Plano B: uma vida de fraudes e vigarices em que se aproveitam de tudo e de todos para viverem à grande, em hoteis, spas, discotecas, sempre com tudo a que têm direito. A vida começa a correr mal quando surge um polícia no seu encalço - representado pelo lendário Amitabh Bachchan, que será o equilvalente indiano ao Sr Sean Connery mas 1000 vezes mais famoso e venerado e que aqui parodia sem pudor os seus filmes policiais dos anos 70 e 80. Muito bom!

Amitabh é também o pai de Abhishek Bachchan, o nosso Bunty, e no filme acaba mesmo por funcionar como uma figura paterna para os dois fugitivos. E por falar em família, esta é uma oportunidade para ver Aishwarya Rai numa participação especial, dançando com Amitabh e Abhishek, que viriam a ser o seu sogro e o seu marido na vida real, respectivamente.

No entanto, creio que a estrela de Bunty aur Babli é Rani Mukherjee, de quem creio já ter falado antes (ver post sobre Mangal Pandey).
Rani é provavelmente uma das actrizes mais profissionais, empenhadas e trabalhadoras de Bollywood. Não se envolve em escândalos, tem sempre boas prestações (i.e. credíveis) e não é dada a vedetismos. Consta até que certos actores/produtores como Aamir Khan ou Shah Rukh Khan insistem em trabalhar com ela por oposição a outras actrizes mais "divas".
E tanto está bem num papel cómico como este, como noutros mais dramáticos, como em Black (de que falarei mais tarde).

Resumindo, Rani é excelente e está excelente também neste filme. Ela e Abhishek têm uma grande química e são imparáveis nas gargalhadas.

Muitíssimo recomendável, num Martim Moniz perto de si.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Aamir Khan

Ao criar este blog, a sua autora comprometeu-se consigo mesma a usar linguagem o mais correcta possível, com poucos estrangeirismos ou expressões familiares, e a apresentar filmes de forma transparente, tentando não ser muito parcial.
Como tal, e de forma a avançar nos posts rapidamente, há que fazer uma purga inicial, uma purga chamada Aamir Khan.
Lamentavelmente, a autora do blog tem uma... admiração pelo actor e produtor Aamir Khan um pouco desequilibrada quando comparada com os restantes participantes nessa grande indústria que é Bollywood. Passo então a apresentar três filmes que decerto agradarão a mais leitores e que, para quem não viu, recomendo vivamente.


Lagaan
Lançado em 2001, Lagaan foi editado em Portugal com o título Era Uma Vez na Índia e chegou a estar em exibição no cinema.
Passado nos tempos do império britânico na Índia (temática recorrente nos filmes de Aamir Khan), conta como, por mesquinhez, um oficial inglês chantageia o marajá indicando que vai aumentar o imposto sobre os cereais ("lagaan") a não ser que este coma uma refeição com carne. O marajá, por motivos religiosos, indica que não o pode fazer. Segue-se então um desafio para um duelo de criquete (desporto nacional paquistanês e indiano) entre camponeses e ingleses, sendo que os primeiros são treinados pela irmã apaixonada do oficial inglês.

Este filme tem tudo: um triângulo amoroso, alegorias mitológicas, aquela que considero ser uma das melhores sequências de dança do cinema moderno, protagonizada pela adorável Gracy Singh, e a defesa da honra como sendo um valor imprescindível. Ah, e não esqueçamos as cerca de duas horas de criquete, óptimo para aprendermos como a regras.


Mangal Pandey
Senhores, este filme é para vocês. Para começar, não há muito bailarico.
Há algum, mas é meramente acessório.
Mangal Pandey existiu mesmo, e morreu em 1857, no seguimento daquilo a que os ingleses chamaram "motim" e os indianos "guerra pela independência".
Inicialmente, Mangal faz parte do exército chefiado pelos ingleses.
No entanto, ao longo do filme vai havendo uma sequência de eventos que leva a um aumento da sensação de revolta contra os ingleses, começando pela forma como tratam as mulheres - é memorável o momento em que Rani Mukherjee diz "Nós vendemos-lhes o nosso corpo, mas vocês vendem a vossa alma" aos soldados indianos.

O culminar dá-se quando os soldados indianos descobrem horrorizados que as suas munições foram barradas com gordura animal, o que é intolerável tanto para hindus como para muçulmanos. E instala-se a revolta. Deixem-me que vos diga, é maravilhoso para um vegetariano ver um filme destes!

Pelo caminho, vemos um oficial britânico, o capitão William Gordon, salvar uma viúva da "sati" (basicamente, o lançamento da viúva para a pira funerária do marido) e apaixonar-se por ela. E sim, há cena de beijos e cama, ainda que muito subtilmente.

Como devem imaginar, o filme acaba mal para Pandey e bem para a independência da Índia.


Rang De Basanti
Lançado internacionalmente com o título "Paint it Yellow", este filme culmina com um sacrifício. O amarelo, li algures, é uma cor associada ao martírio. Já dá para imaginar onde isto leva...

Um grupo de amigos é abordado por uma realizadora inglesa para desempenhar papéis de personagens que, inicialmente, nada lhes dizem. A juventude só quer saber de bhangra e não tem interesse naqueles que em tempos lutaram pela independência. Pelo menos até perceberem que a Índia é ainda um país dependente, mas da corrupção.

Tal como Lagaan, também este filme foi nomeado para um Óscar e recebeu vários prémios.
Em qualquer uma destas obras podemos deixar estar a "suspensão da descrença" porque os actores são realmente bons e muito credíveis. Já agora, olho aberto para Kunal Kapoor.

Aamir Khan faz questão de participar na produção dos seus filmes, trabalhar com bons actores (por oposição a populares mas que não sabem representar) e trabalhar devagar. Um filme de cada vez.

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