domingo, 3 de julho de 2011
Coreografias Ultrajantes do Cinema Indiano - Pyaar Do Pyaar Lo
Não sou a pessoa mais actualizada da blogosfera em matéria de bandas-sonoras Bollywood por isso só hoje, via rádio, é que descobri que a canção 'Pyaar Do Pyaar Lo', de Janbaaz (1986), teve um remake em 2011 no filme 'Thank You'.
E em ambos os filmes o vídeo que acompanha a canção é bastante ultrajante, embora por motivos diferentes.
Em 1986, uma Rekha muito disco diva fazia playback ao som da voz da cantora Sapna num ambiente tirado dos vídeos de Duran Duran, com Frankie Goes to Hollywood à mistura e até uma pitadinha de Depeche Mode nos bons velhos tempos. Obrigada, Feroz Khan, por elevares sempre o kitsch a novos píncaros no cinema indiano!
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domingo, 12 de setembro de 2010
Hisss
Ora aqui está um filme que eu ando em pulgas para ver já há muito tempo. E a espera parece estar, finalmente, a chegar ao fim. Por esta altura do campeonato, os leitores assíduos do Grand Masala já devem saber que eu adoro filmes com Nagin [mulheres-cobra] e é sempre com renovado entusiasmo que eu constato que este peculiar sub-género ainda está a dar cartas no panorama cinematográfico mundial.
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sábado, 18 de julho de 2009
Billu Barber
Delicioso! Passei duas horitas muito agradáveis a degustar uma das mais recentes produções da Red Chillies que junta dois dos meus Khan favoritos: Irrfan e Shah Rukh.
Este filme esteve envolvido em polémica ainda antes de ter estreado. Uma associação de cabeleireiros e salões de beleza pediu educadamente à produtora que retirasse a palavra "barber" do título pois estava a dar azo a provocações e assédios.
Aparentemente, as pessoas metiam-se com os barbeiros chamando-lhes "Billu" e estes começavam a sentir-se incomodados.
Por isso, o nome oficial deste filme é somente Billu. Mas para nós continua a ser Billu Barber.
Sendo um remake do filme Katha Parayumpol (lançado em 2007 e falado em língua Malaiala), Billu Barber é uma adaptação moderna da história de amizade entre Krishna e Sadama.
Billu (intepretadado pelo fantástico Irrfan Khan) é um pobre barbeiro de uma aldeia remota que, pouco a pouco, vê todos os seus clientes mudarem para um barbeiro mais moderno do outro lado da rua.
Não tendo como renovar o seu material nem sequer como pagar as propinas dos filhos, Billu mantém-se firme na sua decisão de não negociar com agiotas e vai fazendo promoções nos cortes de cabelo. Enquanto isso, sonha com dias melhores.
Entretanto chega à cidade a mega-estrela de cinema Sahir Khan, interpretado pelo astro da vida real Shah Rukh Khan.
A fronteira entre a realidade e a ficção torna-se invisível, e Sahir é em tudo igual a Shah Rukh.
Ao longo do filme surgem várias imagens de películas emblemáticas e facilmente reconhecíveis de SRK, que, conjugadas com os cartazes dos filmes colados em todas as paredes, conferem uma intertextualidade muito interessante a Billu Barber.
Um pouco como acontece em Om Shanti Om, outro favorito aqui da vossa amiga.
São até feitas piadinhas sobre a inimizade entre os dois Khan (leiam mais sobre isso aqui) e exibidos estandartes dizendo "King Khan" - título que, na vida real, pertence a Shah Rukh Khan.
Os dois filhos de Billu apressam-se a espalhar pela aldeia que o seu pai barbeiro é amigo de longa data de Sahir. Pelo menos essa é a história que ouvem contar desde pequenos.
De um momento para o outro, esta família ostracizada passa a ser o falatório da aldeia e surgem à sua porta dezenas de novos "amigos", todos ansiosos por usar Billu como passaporte para conhecer/tocar/cheirar Sahir. Os seus próprios filhos insistem em conhecer o "tio" e a sua mulher Bindiya (Lara Dutta) suspira ante essa possibilidade.
Billu confidencia à mulher que receia que Sahir não se lembre de si e que por isso nada fará para se encontrar com ele.
Após muita insistência por parte da população - com cenas tanto hilariantes como tocantes pelo meio - chega-se a um ponto em que Billu é rotulado de "fraude" e todo o interesse nele desvanece.
Para o fim fica a revelação do mistério: será que os dois homens se conheceram de facto?
Independentemente da resposta, há algo que prevalece: a dignidade de Billu durante todos os assédios e todas as provações. E quanto a isto, não imagino nenhum outro actor que não Irrfan Khan neste papel. O seu retrato humilde e dedicado à família é comovente e a sua personagem é um exemplo de como todos devemos ser.
Estas qualidades saltam à vista quando confrontadas com as dos restantes aldeões - uns são interesseiros, outros despeitados, outros invejosos.
Este é um filme que o actor e produtor Shah Rukh Khan defendeu como um filho e que mostra uma faceta bastante madura deste actor que, embora seja desde há muito o mais popular da Índia, tem vindo a crescer notoriamente enquanto artista.
Resta-me falar da música como faço sempre. Em Billu Barber as cenas musicais estão (quase) todas reservadas às cenas em que mostram Sahir nos seus filmes e não são intercaladas nem em nada contribuem para a narrativa em si. Interpreto esta separação como uma declaração nítida de que não é preciso song and dance para contar um história boa. Nós gostamos, mas não é essencial.
Quem já viu o filme diga-nos também o que achou.
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sexta-feira, 29 de maio de 2009
The Namesake
- O Bom Nome
Eu sei, este filme é mais americano que indiano. Mas vou escrever sobre ele na mesma. Somos ou não somos uma masala?
Infelizmente a minha apreciação deste filme está toldada pelo facto de ter lido o livro no qual é baseado há menos de uma semana. Ou seja, sim, este será um daqueles posts do género "o livro é melhor que o filme".
O romance de Jhumpa Lahiri, publicado originalmente no The New Yorker, conta-nos as vidas de duas gerações de uma família bengali a viver nos EUA.
Ashima e Ashoke (Tabu e Irrfan Khan, respectivamente) têm um casamento arranjado na Índia e emigram para os EUA, onde ele vive como professor e ela como dona de casa.
Como suponho que acontecerá com muitos casamentos combinados, acabam por se conhecer e a estranheza inicial dá lugar ao carinho e ao amor.
Ao longo do livro - e do filme - acompanhamos também o crescimento dos seus dois filhos, Gogol e Sonia. A ênfase é colocada no primeiro, que no livro é descrito como um
American born confused Desi. Ou seja, um descendente de indianos nascido na América com problemas de identificação.
Não me interpretem mal, o livro é interessante, mas não é espectacular. O filme, por outro lado, falha em captar o interesse do espectador.
A realizadora Mira Nair, de quem esperava mais sensibilidade ao passar para o ecrã as emoções e as situações que as personagens enfrentam, acabou por não fazer mais do que filmar os momentos-chave da história, numa sequência de cenas sem interligação onde muitos elementos ficam simplesmente no ar.
Ficou por explicar o que aconteceu à avó que deveria ter dado o nome oficial a Gogol. Ficou por demonstrar a irritação deste com o facto de ter uma alcunha e não um nome próprio. Ficou por relatar a angústia de Ashima perante os costumes americanos e a distância da família.
O próprio título do filme acaba por não se tornar claro, enquanto que no livro é o elemento central de quase todo o enredo.
Por outro lado, acho que o casting não foi o mais feliz.
Para interpretar Gogol foi escolhido o actor Kal
Penn, que conhecemos de papéis mais "totós" como é o caso dos filmes Grande Moca, Meu! e da série House. Não tem um ar suficientemente credível para o papel.
Passei grande parte do filme a preferir que fosse Abhishek Bachchan a fazer este papel - e não é que descubro que foi a primeira escolha da realizadora? Infelizmente, como Abhishek é notoriamente indiano a opção acabou por ser um actor nascido nos EUA.
Também não gostei de ver Zuleikha Robinson como Moushumi, a mulher infiel de Gogol. Se no livro ela é retratada como bonita, sedutora e elegante, no filme parece só uma rapariga vulgar. E digo vulgar no sentido de "reles" e não de "comum". Ficamos sem perceber o que Gogol vê nela...
Mas para não parecer muito mazinha, decidi guardar algumas coisas boas para o fim: Tabu e Irrfan Khan, claro!
Estes são sem dúvida dos melhores actores da sua geração, e não estou a falar de actores indianos, mas sim de actores no geral.
Se eu fosse realizadora de um filme com Irrfan Khan, puxaria mais por ele do que aqui foi feito, pois o homem é um filão com imenso para dar.
Quem está muitíssimo bem é a veterana Tabu, perfeita para o papel de Ashima. Ok, talvez eu esteja a dizer isto por ela corresponder à Ashima que eu imagino, mas creio que não é só isso. Ela tem espelhado no rosto todo a amor conjugal e maternal que sabemos que a reservada Ashima sente.
Resta-me aconselhar quem ainda não o tenha feito a ler o livro. É pequenino, lê-se bem e explora muitas das questões que o filme toca apenas ao de leve.
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quinta-feira, 5 de março de 2009
O Guerreiro, a.k.a.The Warrior
Vi "O Guerreiro" no outro dia... uau, antes de mais. Quando o vi à venda há uns meses valentes - sim, porque comprei-o mas só o vi uns 6 meses depois - o pouco que li no DVD pareceu o suficiente para me convencer.
Uma sinopse vulgar sobre um tipo de história que gosto de ouvir: Guerreiro decide abandonar a sua carreira de carnificina após um encontro místico com uma rapariga.
Ok, de repente não parece muito, não parece nada de especial; até vermos o filme de facto.
Começa a história. Nos desertos do Rajastão vive um indivíduo muito ruim, o senhor feudal, que tem a seu soldo diversos guerreiros que, como se sabe, em tempo de paz fazem as guerras dentro de casa.
Assim, vemos Lafcadia (Irrfan Kahn, sim sim, o polícia do Slumdog Millionaire) ser chamado para punir exemplarmente uma aldeia por não pagar tributo.
Começam-se a notar os detalhes que tornam este filme uma experiência singular; começa-se a notar que os diálogos são quase inexistentes e que a fotografia é soberba.
Durante a aplicação da exemplaridade feudal na malograda aldeia, o herói (que apesar de não cumprir nenhum desígnio que lhe confira o título, será por mim assim chamado dado o seu perfil Olímpico e Prometaico) cruza-se com uma pequena rapariga e vê-se transportado para as neves eternas da sua aldeia natal dos Himalaias. Despertado do sonho, vê neve sob os seus pés nas areias do Rajastão.
É mais ou menos por esta altura que compreendemos que este filme tem outra coisa qualquer aqui pelo meio...
O herói compreende a vaidade das coisas e os malefícios da avareza sem limites e decide abandonar o serviço do senhor feudal (também conhecido como deserção) e encaminhar-se para a aldeia que o viu nascer.
Claro, o senhor feudal não vai nisso e falando como um verdadeiro mafioso prontamente afirma "ninguém abandona o serviço, tragam-me a sua cabeça".
O herói passa por casa para levar o filho que, após algumas peripécias acaba por ir parar às mãos dos perseguidores e conhecer um fim menos agradável.
E aqui começa a dura escalada espiritual. Digo escalada porque a metáfora é bem presente no filme. Dos desertos do Rajastão onde grassa a miséria e o ódio, até às montanhas dos Himalaias e a paz eterna.
Confesso que ver em imagens - e que imagens - aquilo que se podia ter lido nas "Meditações Sobre os Picos" de Julius Evola me fascinou.
O filme tem um constante carga mística e mesmo esotérica que não passará desapercebida ao olho do adepto. É precisamente esta carga mística constante que torna este filme especial, etéreo e pungente ao mesmo tempo.
Por esta altura os paralelismos com Asoka serão inevitáveis para muitos, admito, mas escusados a meu ver porque as semelhanças são só mesmo aparentes: Guerreiro abandona a violência para se dedicar à paz. As diferenças no entanto... imensas.
Eu gosto do Asoka, notem, mas este filme é um Asoka mesmo muito bem filmado, sem fait divers e que veicula de um modo claro a mensagem latente da não violência patente no filme com o outro Kahn, o Shahrukh.
Mais acima tinha dito que os diálogos no filme são parcos e isso, meus amigos, construir uma narrativa sólida assente fortemente no visual, é um feito se bem conseguido e neste filme foi feito magistralmente.
Muito se deve a Irrfan Kahn e à sua postura no ecrã absolutamente dominada e dominadora. Ele não precisa de falar da dor estampada na sua cara, nem dos horrores que viu, está lá bem expressa no olhar profundo. Um grande bem haja também a todos os que ajudam a compor o ramalhete em termos de elenco, em particular a Noor Mani, um rapaz de rua sem formação de actor que desempenha o papel do ladrão Riaz.
Se têm saudades de ver e ouvir uma história decente, filmada como deve ser e com um desempenho performativo à altura, é este. Se por outro lado, esperam ver batalhas, explosões e a trivial história do menino que conhece a menina e não sei o quê, vejam outro.
Escrito por Rodolfo 1 comments
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