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terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O Rio Sagrado (The River) - Jean Renoir

Fez este mês de Janeiro 59 anos - 59! - que estreou em Portugal o filme O Rio Sagrado do realizador francês Jean Renoir.

Não sendo um filme indiano na génese, O Rio Sagrado é um filme muito indiano no conteúdo e na forma.
Tendo como fio condutor as memórias autobiográficas da narradora, O Rio Sagrado usa o pretexto de contar a história do amor platónico de uma adolescente por um soldado veterano para tecer um longo e apaixonado poema de amor pela Índia.

A história é simples e encantadora. Com a chegada à Índia de um antigo soldado americano que perdera uma perna na guerra, os jovens corações de Harriet, Melanie e Valerie sentem-se imediatamente atraídos por este homem misterioso e, aparentemente, inatingível.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Jalsaghar - A Sala de Música


No seu ensaio Urdu, Awadh and the Tawaif (disponível gratuitamente, ainda que por meios ilegítimos, na internet), Mukul Kesavan escreve:

Jalsaghar is not a naturalist film; it is a dramatised elegy about the passing of a cultivated, if decadent, way of life (...) and Ray is a scrupulous mourner.

Com efeito, Jalsaghar - filme realizado em 1958 pelo bengali Satyajit Ray - tem tudo aquilo que aprendemos a amar no cinema de época indiano: dança, poesia e saraus musicais onde as bailarinas dançam kathak ao som de música clássica tocada ao vivo. E no entanto, Jalsaghar relembra-nos duramente que tudo isso está associado exactamente a uma época e a um tipo de classe social que não voltam mais.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Homenagem ao poeta Rabindranath Tagore


A Cinemateca Portuguesa inicia amanhã um ciclo de cinem de homengem ao poeta bengali Rabindranath Tagore tendo como base os filmes do cienasta Satyajit Ray.

De acordo com o comunicado da Cinemateca, "[o]s seis magníficos filmes que escolhemos para este programa pertencem a Satyajit Ray, para quem a obra literária de Tagore foi determinante na construção da sua visão do mundo e do cinema. Nem todos estes títulos partem de escritos de Tagore, mas todos são atravessados pela tradução em imagens das suas inspiradas palavras."

Os detalhes da programação podem ser consultados aqui.

Entrada livre.

domingo, 8 de agosto de 2010

Pather Panchali

Como escrever sobre um filme como este? Como prestar homenagem a uma obra que tem tanto de humanista como de lírico? A resposta é: com muita humildade.


Adaptado de uma obra de Bibhutibhushan Bandopadhyay, Pather Panchali narra a história do pequeno Apu e da sua família. E em traços largos, o filme é isto. O dia-a-dia de uma paupérrima família e das suas relações. Nem mais, nem menos.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Pather Panchali - cinema ao ar livre em Lisboa

Amigos, a Casa da Achada tem apresentado sessões de cinema ao ar livre às segundas-feiras à noite no âmbito do ciclo Assim Começaram 13 Grandes Realizadores.

As projecções começam às 21h30, no Largo da Achada, e na próxima segunda será exibida a obra de estreia de Satyajit Ray, Pather Panchali.

Este ciclo prolonga-se até finais de Setembro no que prometem ser noites de Verão bem agradáveis no coração alfacinha.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Charulata - The Lonely Wife


Ver qualquer filme de Satyajit Ray é um privilégio. O sentimento de que estamos perante um exímio contador de histórias é uma constante sempre que me sento a ver uma das suas obras. Os superlativos a si ligados são muitos e não me cabe aqui a tarefa de aumentar a lista já preenchida com grandes nomes como Akira Kurosawa, Martin Scorsese ou Jean Renoir, assumidos fãs do realizador de Bengala. O que me traz aqui hoje é um filme seu que há muito tinha curiosidade de ver, visto ser considerado um dos expoentes máximos da sua riquíssima filmografia: Charulata.

Tendo sido feita a sua formação académica na Universidade Rural de Rabrindanath Tagore, Ray vai ter a obra deste último como uma das suas maiores inspirações e referências literárias. Não é então por acaso que este Charulata seja directamente inspirado por uma obra de Tagore: Nastanirh (The Broken Nest).


Em Charulata, vamos encontrar a história de um casal rico e culto que se vai ver a braços com duas crises que irão abalar as suas vidas irremediavelmente e muito contra a sua vontade. Central na trama está a esposa, a titular Charulata, representada por uma luminosa Madhabi Mukherjee, uma habituée na filmografia de Ray e a alma de todo o filme. Charu é lida, letrada e só. E sem nada para fazer. E lá diz o velho ditado: the devil makes work for idle hands. Entra em cena o primo do marido, que a convite deste vem fazer companhia à sua esposa para os dias não lhe parecerem tão entediantes. Pois. Já estão a ver aonde é que isto vai dar, não estão?

Mas para mim, o ponto de interesse máximo da história não é a fidelidade/infidelidade que poderá entretanto acontecer. Não. Para mim, marcou-me mais ser uma história passada em Calcutá em 1870 e conter uma personagem feminina tão marcante como é a de Charulata, capaz de pensar por si própria e de discordar abertamente com as opiniões tanto do marido, como do seu primo. E de não ter medo dos seus sentimentos.


A ajudar a tudo isto, temos a cadência própria de uma grande história que não se apressa a despachar os seus personagens para o eventual desfecho lógico que se adivinha dramático, compassada com uma magnífica banda-sonora assinada pelo próprio Satyajit Ray e fotografada pelo não menos sublime Subrata Mitra que prova mais uma vez ser um mestre do understatement, ou se preferirem, da subtileza das suas imagens. Comprovem tudo isto no próximo clip, uma das cenas-chave deste belíssimo Charulata.

terça-feira, 13 de abril de 2010

The Darjeeling Limited


Já que a nossa barbie-o deu o mote com o Bombay Talkie, vou aproveitar a deixa e falar sobre um outro filme feito sob uma perspectiva ocidental tendo como pano de fundo a Índia. Não se preocupem que eu não me esqueci dos meus afazeres e deveres: Helen e Bollyhorror continuarão a ser as minhas mecas indianas aqui no Grand Masala (assim como algum Dharmendra!).

Antes de mais, tenho que dizer que o Wes Anderson é o meu menino bonito do cinema actual. Para terem uma ideia, eu gosto tanto dos filmes que ele faz que, se pudesse, vivia dentro deles. Os mundos que ele cria são completos e auto-subsistentes e a sua atenção ao pormenor é sempre altamente cuidada, nunca deixando nada ao acaso tendo a sua maior expressividade nos cenários e adereços que ajudam a definir o meio em que as personagens se inserem. The Darjeeling Limited não é a excepção a esta sua regra e recomendo vivamente a verem qualquer um dos seus filmes no grande ecrã para terem oportunidade de assimilarem o maior número de referências visuais que ele adora incluir em qualquer um dos magníficos enquadramentos das suas cenas.

Ora, quando eu soube que ele iria fazer um filme passado na Índia, quase pulei de alegria e os meses de antecipação foram longos e penosos. Felizmente, os resultados foram mais do que satisfatórios e, rapidamente, se tornou um dos meus filmes contemporâneos favoritos. As explicações seguem mais abaixo.


Inspirado nos filmes de Satyajit Ray (cuja música de Ravi Shankar ele utiliza na eclética banda-sonora, assim como faixas dos Kinks, Rolling Stones e o tema de abertura de Bombay Talkie, composto por Shankar-Jaikishan), nos documentários sobre a Índia de Louis Malle e nas produções indianas de Merchant-Ivory (já abordados pela barbie-o no post exactamente abaixo deste), este delicioso filme vai tratar da viagem física (de comboio, o titular Darjeeling Limited) e espiritual de três irmãos, representados por Adrien Brody, Jason Schwartzman e Owen Wilson, que pelo caminho vão também purgar-se de traumas recentes, nomeadamente a morte do pai e o afastamento da mãe. Como já devem adivinhar, a trama vai envolver paisagens lindíssimas, paragens em mecas espirituais e passagens com algum cariz dramático e, até, trágico.

O que torna o filme especialmente interessante para mim é o elevado grau de identificação que eu tenho com ele. Sendo um de três irmãos e tendo também perdido o meu pai em tenra idade, revi-me em muitas das situações e conflitos fraternais que daí advêm. No fim do filme, e tal como na vida real, tudo se resolve embora não da maneira como pensaríamos. Um dos factores chave para apreciarmos este filme é também a Índia que Anderson nos mostra, longe dos lugares-comuns e da visão romantizada a que certos artistas ocidentais nos habituaram. É uma Índia despojada de riquezas que nos convida a despojarmo-nos também nós de coisas que não interessam para nada na viagem de comboio que é o percurso pessoal de cada um de nós.


Mas é em França que tudo começa, num Hotel que dá o título à curta-metragem que vos convido a ver já de seguida e que serve de prólogo ao filme em si. Anderson pode ser americano de gema (nasceu no Texas e tudo!), mas a sua visão é deliciosamente europeia, captando na perfeição o discreto charme da burguesia.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Satyajit Ray’s Shatranj Ke Khiladi

Os Jogadores de Xadrez (1977)

Sei que não foi o primeiro filme Indiano que vi, no entanto foi o primeiro que guardei na memória e na minha lista de filmes favoritos, a cuja vestoria passo como por saudade. Tinha 18 anos e saquei-o de casa do pai da namorada de então, que é um apaixonado por cinema e a quem agradeço a introdução ao cinema Indiano com um maior pendor de autor.
Quando o filme foi lançado em Inglaterra, as críticas pareceram-me, pelas duas que li, impregnadas de partenalismo. O filme tem como fundo condutor a ocupação do último estado Indianao (Owadh) que permanecia sobre o governo de um rei nacional, e que se mantinha à conta dos fundos que periodicamente entregava ao Império Britânico para as suas campanhas militares.

Foi então, lendo os comentários de cidadãos Indianos a viver em Inglaterra que percebi que existia uma língua chamada Urdu (idioma nacional do Paquistão e falada nas regiões centrais da India), que parecia ser essencial para a compreensão do filme, que é tricotado pela utilização da linguagem, Inglês, Hindi e Urdu. Tal pormenor mostrou-se realmente importante para o completo desfrutar do filme (ainda que apenas pela expressão dos actores) e razão por ser hoje considerado como um clássico.
Dado que a obra é adaptada do livro homónimo de Premchand, autor muito considerado no seu país, ainda que pouco conhecido pela literatura mundial, parte das criticas negativas da altura por parte dos conterraneos de Ray foi o facto de este ter escrito um argumento em que ambos os pontos de vista (Britânicos e Indianos) eram mostrados, criando personagens novas, o que não acontece no romance que é totalmente descrito através dos diálogos dos jogadores de xadrez (Sanjeev Kumar e Saeed Jaffrey) e das considerações do rei e seus súbtidos. Ray (que arriscava o primeiro filme Hindi, após já possuir uma respeitada carreira com obras Bengali) ficou no meio de dois fogos e o filme foi remetido ao esquecimento, assim como os amigos jogadores esquecem todo o desmoronar social que se passa à sua volta, embrenhados que estão no seu partinhado vício pelo xadrez.

Lembro-me sempre de uma frase em que é dito que “Foram os Indianos que inventaram o jogo, mas foram os Britânicos que o tornaram conhecido no mundo!”.
O desfecho do jogo pelas regras originais é lento mas aprimora a paciência e contemplação do jogador, mas as alterações introduzidas por exteriores à cultura original tornaram-no mais célere, diversificado e interessante a quem o observa de fora.
O filme é, na minha interpretação, sobre isso mesmo. Os resultados de culturas em oposição e em coadjuvação, as coisas novas que se criam quando coisas diferentes se encontram, umas coisas melhoram e outras pioram, o ponto de vista faz variar a visão da coisa.
Pretas contra brancas, galos em luta de morte, Ingleses e Indianos em desiquilibrio, esposa e esposo em desentendimento, a conquista e o abandono final.
Para os ocidentais o filme descrevia a forma impotente e resignada como os Indianos entregaram a provincia, uma vez que se não eram capazes de cuidar das suas mulheres também não o eram de tomar conta da sua terra, e sendo assim era honesto e um filme com algum interesse.
De um terceiro ponto de vista (o dos Hindi que não se importaram com as libertades de Ray no argumento), o filme retrata na perfeição o tom da linguagem Urdu.
Onde o ocidental entende este tom delicado como sinal de fraqueza, resignação e humilhação, este tem subentendido, como se fosse uma troca de olhares entre amantes, a frustação, o ódio e o nojo em ver a marcha dos invasores a entrar na sua cidade.

Muito dificil de apanhar em dvd com legendagem portuguesa (para dizer a verdade nem sei se existe alguma edição) o filme pode ser visto (de vez em quandooooo) na Cinemateca de Lisboa.

Deixo-vos o único momento musicado do filme, em que se dança (mostrando como seria no séc.XIX) para o prazer de um soberano poeta...

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